Borgonha, a fragmentação da fragmentação

No post ‘O novo Velho Mundo‘ comentamos sobre as diferenças entre o Novo Mundo e o Velho Mundo e como os tempos modernos fizeram os tradicionais países da Europa se conscientizarem da importância de considerarem o paladar do consumidor internacional no momento da produção de seus vinhos. Do mesmo modo, esta deferência implicou na mudança do estilo de muitos vinhos europeus, acarretando na perda da sua identidade ao implantar técnicas enológicas que geram vinhos agradáveis e ‘mais fáceis’ de beber.

Pensando em termos de negócio, pode ser interessante criar algo que facilmente irá atrair o consumidor, pois potencialmente irá atingir um mercado maior e poderá gerar um aumento no faturamento. Por outro lado, isso tira um dos principais atributos do vinho, que é a singularidade de cada região e de cada casta. Por vezes, esta individualidade também pode gerar um produto de nicho, de alto valor agregado.

Dentro deste contexto, se há uma região no mundo que praticamente não se curvou ao paladar internacional, ela é a Borgonha. Ao contrário de Bordeaux (sua ‘concorrente’ na França) e de produtores de países como Argentina, Chile e Estados Unidos, que possuem vastas áreas plantadas, os produtores da Borgonha são quase camponeses, donos de ínfimas parcelas de terra (às vezes menores que 1 hectare), sendo eles mesmos a realizarem todos os trabalhos.

A grande fragmentação dos vinhedos é um dos motivos desta fascinante região ser tão difícil de ser entendida. Isso começou após a Revolução Francesa, quando as terras foram confiscadas da Igreja e redistribuídas para os camponeses que cuidavam dos vinhedos. Logo em seguida, foi criado o Código Napoleônico, que regulamentou que a herança deixada pelo genitor tinha de ser igualmente dividida entre os seus herdeiros – lei que continua vigente até hoje! – gerando uma multiplicação exponencial de proprietários, onde a terra se fragmentou ainda mais a cada nova geração. Trocando em miúdos, um único vinhedo é dividido em vários proprietários e cada um deles cuida de sua parcela do jeito que quiser. Ou seja, há viticultores meticulosos que cuidam de suas videiras com extremo cuidado e fazem vinhos espetaculares e, ao lado, pode haver outros que não são tão cuidadosos e geram vinhos medíocres.

Por isso, na Borgonha, tão importante quanto conhecer o vilarejo ou vinhedo de onde vem o vinho, é primordial saber quem é o produtor.

16 801Outro ponto que costuma gerar confusão é a grande quantidade de nomes escritos nos rótulos e que parecem dizer pouca coisa sobre o vinho.  Afinal, o que é Nuits St. Georges? Aloxe-Corton? Qual a diferença entre eles?

Tais nomes correspondem à vilarejos ou vinhedos (chamados Premier Cru ou Grand Cru) de onde saíram as uvas usadas naquele vinho. Isso faz toda a diferença, pois, na Borgonha, o sentido de terroir é ainda maior que no restante da Europa, já que cada um destes pedaços de terra possuem características geológicas que, por mínimas que sejam, se exprimem fortemente nas uvas Chardonnay e Pinot Noir.

Some esta divisão de fronteiras à fragmentação dos vinhedos e você encontrará uma colcha de retalhos na sua melhor expressão. Muitos consumidores de vinho se sentem intimidados por esta região por conta desta complexidade, mas uma boa forma de encará-la é com espírito de descobrimento e não de frustração.

Quem sabe o maior desapontamento sejam os altos preços que os vinhos da Borgonha são vendidos atualmente. Sua limitada produção, o aumento da demanda internacional e safras que sofreram com o clima adverso fizeram seus preços irem às alturas, tornando-os objeto de desejo inalcançável para a maioria dos consumidores. A melhor opção é procurar vinhos das sub-regiões mais ao sul – Côte Chalonnaise e Mâconnais – em vez das prestigiadas denominações da Côte de Nuits e Côte de Beaune. As duas primeiras têm crescido consistentemente em qualidade com preços legítimos, sendo uma ótima iniciação à inigualável Borgonha.

Texto por: Bianca Veratti DipWSET

 

Vinhos:

Bourgogne Chardonnay, Domaine de Rochebin – Macônnais

Mercurey Les Vaux Rouge, Domaine Jacqueson – Côte Chalonnaise

Chablis, Jean-Marc Brocard – Chablis

Nuits Saint Georges Clos des Porrets 1er. Cru, Domaine Henri Gouges – Nuits-St.-Georges

 

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