Pinot Noir, a grande caprichosa

A Borgonha é inigualável. Esta é a afirmação que seguramente você ouvirá dos amantes desta região, mesmo assim enólogos do mundo todo possuem o desejo de reproduzir estes vinhos em suas terras natais, sejam elas o Chile, a Nova Zelândia ou a Itália. Os italianos têm o privilégio de possuir sua própria casta quase tão caprichosa quanto a Pinot Noir e que faz vinhos tão únicos quanto a Borgonha – a Nebbiolo, que dá origem aos singulares Barolos e Barbarescos – mas isso não impede que outras regiões se aventurem com a Pinot Nero, forma como a variedade é chamada na Itália.

Famosa por ser uma uva de difícil cultivo por sua propensão a doenças causadas por fungos, sensibilidade à variação climática e pouca adaptação aos diferentes tipos de solo, a Pinot Noir apresenta característica que nem sempre são apreciados pelo consumidor de vinho comum: tem pouca concentração de cor, taninos delicados e corpo moderado. Em geral, o que se espera de vinhos tintos são o oposto e, por isso, a Pinot Noir muitas vezes é conhecida como um vinho ‘fácil de beber’ ou ‘para mulheres’. Nada mais pejorativo! A Pinot Noir é tão enigmática que exige atenção do consumidor para revelar todas as suas nuances e mostrar que seu potencial em fazer grandes vinhos, assim como a Cabernet Sauvignon ou Syrah. Quanto ao público, frequentemente as mulheres são vistas como possuidoras de paladar pouco avançado, porém é justamente sua natureza curiosa e sensível que as torna potenciais entendedoras dos mistérios da Pinot, mas isso não impede que os homens se tornem os seus mais ferrenhos apreciadores, quando entendem todas as sutilezas desta seletiva casta.

Outro atributo é a sua capacidade de trazer para o vinho as particularidades do terroir onde foi cultivada e é justamente por isso que os vinhos da Borgonha (leia mais sobre esta região aqui) são tão especiais. Mesmo sendo a única casta tinta usada nas denominações borgonhesas, a Pinot Noir faz vinhos distintos em cada um dos vilarejos da Borgonha. É aí que começa o desafio dos produtores do Novo Mundo, pois são raras as regiões que possuem o conjunto de solo e clima onde a Pinot Noir se adapte para fazer vinhos à altura da Borgonha.

Seu solo de preferência são ricos em calcário, que dão refinamento e potencial de envelhecimento para os vinhos. O clima é outro desafio, já que em condições de temperaturas mais elevadas ela tende a fazer vinhos mais alcoólicos e com sabores de geleia de frutas. O caminho encontrado foi cultivá-la em climas mais frescos, como as regiões ao sul do Chile ou a Nova Zelândia, de onde saem os exemplares mais bem-sucedidos do Novo Mundo.

Apesar de sua latitude ser equiparável à distância de Paris ao norte da África, a Nova Zelândia possui clima notadamente mais frio devido às correntes frias do Pacífico e do Ártico, sendo o extremo sul da Ilha Norte e as regiões da Ilha Sul, incluindo Marlborough, as que possuem o clima propício para o crescimento da Pinot Noir. Outro ponto positivo é o fato de a viticultura neozelandesa ser um fenômeno relativamente recente, iniciada em meados do século 19, e seus produtores (muitas vezes com capacidade de produção modesta frente a países como Argentina ou Estados Unidos) serem totalmente focados na qualidade, cuidando com frequência dos vinhedos com técnicas de cultivo orgânico e biodinâmico e vinificando com cuidado artesanal seus vinhos.

Com tantos atributos semelhantes à Borgonha, não há dúvida que a Pinot Noir finalmente achou outro lugar para se sentir em casa.

Texto por Bianca Veratti DipWSET

 

Vinhos:

‘Les Fruits Sauvages’ Pinot Noir – Pays d’Oc IGP – Languedoc (França)

Portillo Pinot Noir, Bodegas Salentein – Vale do Uco (Argentina)

Sol de Sol Pinot Noir, Viña Aquitania – Traiguén (Chile)

Framingham Pinot Noir, Framingham – Marlborough (Nova Zelândia)

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